"Lições de Arquitetura", de Herman Hertzberger
A- Domínio Público
Influência dos usuários:
Grau de acesso (diferenciação territorial)
Demarcações territoriais (público/privado)
Organização da manutenção (zoneamento territorial)
Divisão das responsabilidades
- Resumo com exemplo: Um funcionário de um edifício comercial pode personalizar seu cantinho (mesa/escritório), desde que essa liberdade seja dada a ele. Esta deve ser transmitida pela arquitetura de forma explícita, não do tipo de chegar alguém e falar “você pode por uma plantinha aqui se quiser”. Essa liberdade do usuário de influenciar o espaço depende dos tópicos citados acima, como: se há uma área demarcada como dele, se ele tem acesso total à área, se ele sente que aquele espaço é de seu uso privado e não coletivo, se a organização é de responsabilidade dele. Quando esses requisitos são cumpridos, é natural que o usuário passe a influenciar na decoração do ambiente, e assim ele “evolui” para o nível de morador, criando uma relação próxima e afetiva com o edifício. Vale ressaltar que nem toda organização preza e permite essa liberdade, algumas empresas podem ser bem rígidas e padronizadas em seu interior.
2. Intervalo:
Transição entre áreas
Espaço intermediário entre a rua e o domínio privado
Elemento de hospitalidade na arquitetura
Exemplos: soleira, entrada coberta, meia-porta, alpendre
3. A rua
- desvalorização da rua em função de:
Aumento do tráfego motorizado
Incentivo ao individualismo + aumento da largura das ruas = diminuição do contato e dependência para com os vizinhos
Maior qualidade das casas = mais tempo em casa, menos na rua
- A rua deve ser projetada pelo arquiteto para ser um espaço comunitário, de convivência
B- Criando espaço, deixando espaço
Interpretação:
A estrutura se mantém ao mesmo tempo em que se adapta para variadas situações e usos
Templos em Bali 🠒 ajustes temporários; usos diferentes da mesma construção ao longo do dia
Competência ≠ Desempenho
Competência: capacidade da forma de ser interpretada
Desempenho: modo pelo qual a forma foi interpretada em certa situação
A estrutura:
Urdidura: espinha dorsal; estrutura coletiva; cria coerência
Trama: interpretações individuais; expressão pessoal
“O tema estrutural correto não restringe a liberdade, mas conduz à liberdade!”
A grelha:
Organização de quadras padronizadas 🠒 distribuição de terras
Essa organização pode conduzir à opostos: monotonia ou variedade
Possibilidade de expansão de edifícios variados a cada quadra
Equilíbrio entre regulamentações e liberdade de escolha
Polivalência:
Uso da flexibilidade para combater a rápida obsolescência dos “prédios funcionais”
Entendimento de que não há um estado permanente, o mundo está em fluxo constante e tudo é temporário
Polivalência: forma que sirva para vários usos sem ser alterada
C- Forma convidativa
Lugar e articulação
Dimensões corretas: considerar a função do espaço para determinar seu tamanho, buscando comodidade e conforto
Fornecer o lugar: “Faça de cada coisa um lugar, faça de cada casa e de cada cidade uma porção de lugares, pois uma casa é uma cidade minúscula e uma cidade é uma casa enorme” - Aldo van Eyck, 1962
Articulação: a relação de um grupo com o espaço e entre si muda de acordo com a articulação do ambiente, podendo criar uma relação centralizada, individualizada ou coletiva
Visão I
Equilíbrio entre visão e reclusão, abertura e separação
Uso de níveis, sacadas, elevações, etc., que criam certos graus de isolamento de áreas, mas não total
Responsabilidade da arquitetura sob as relações sociais que se darão no espaço projetado de acordo com a visão e posição de cada indivíduo em relação aos outros e ao seu entorno
Visão II
“Trazer o mundo exterior para dentro”
Integração do interior com o exterior
Uso de janelas, aberturas de vidro, entrada de luz
Busca pela harmonia, participação e leveza no ambiente e nas relações
Visão III
“Janela para o mundo”
Adequação ao tempo, estações e situações
Valorização de transparência, funcionalidade e detalhes estruturais
Busca por clareza e consciência do ambiente, dos elementos que o compõem e do porquê de cada um
Relação, harmonia e conexão entre as partes
Equivalência
Simetria dos elementos e acessos ao edifício
Quebra da hierarquia de importância e desigualdade social
Importância e preferência são relativas à situação e ao indivíduo
Arquitetura convidativa
Conclusão: a forma convidativa da arquitetura se refere à participação do indivíduo com o espaço e com os outros indivíduos que circulam por ali, de modo que ambos possam se relacionar, se ver e, ao mesmo tempo, ter sua privacidade garantida. O equilíbrio é a palavra chave do capítulo, visando o conforto do usuário e a quebra da comodidade que o isolamento no espaço privado proporciona. A relação interpessoal é altamente valorizada e deve ser incentivada pela arquitetura, se opondo ao extremo individualismo que vem sendo incorporado na arquitetura contemporânea atual. A noção do que acontece ao seu redor não deve se perder por paredes que bloqueiam toda a visão externa.
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